Economia

Cientistas da USP criam impressão digital para rastrear madeira ilegal da Amazônia

ResumoCientistas da USP desenvolveram um método químico baseado em análise de isótopos estáveis para criar uma 'impressão digital' da madeira amazônica. A técnica permite rastrear a origem exata da extração ilegal, apoiando a Polícia Federal e perícias ambientais no combate ao desmatamento e na certificação de cadeias produtivas sustentáveis.

Cientistas da USP desenvolveram um método químico que cria uma 'impressão digital' para rastrear a origem exata da madeira extraída na Amazônia. A técnica, que analisa isótopos estáveis, já apoia a Polícia Federal e perícias ambientais, com potencial para blindar cadeias ESG de e

Caetano Vidal
Caetano Vidal Analista de criptoativos · 28 de julho de 2026
Cientistas da USP criam impressão digital para rastrear madeira ilegal da Amazônia

Cientistas da USP criam "impressão digital" para rastrear madeira ilegal da Amazônia

Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um método químico capaz de rastrear a origem exata da madeira extraída na Amazônia. A técnica, que analisa isótopos estáveis para criar um mapa de referência geográfica, já apoia a Polícia Federal e perícias ambientais no combate ao desmatamento ilegal.

A inovação pode revolucionar o combate ao desmatamento ilegal e blindar o rastreamento ESG de empresas do setor florestal, do agronegócio e de fundos de investimentos. O método analisa a proporção de isótopos de oxigênio, carbono, nitrogênio e estrôncio na celulose de madeira, elementos que variam conforme o clima, solo e altitude da região. Por formarem uma assinatura química impossível de ser adulterada artificialmente, os isótopos oferecem uma evidência blindada contra fraudes no Documento de Origem Florestal (DOF).

Como funciona a "impressão digital" química da madeira

O estudo foi conduzido pelo grupo do professor Luiz Antonio Martinelli, com participação da pesquisadora Isabela Maria Souza Silva em projeto de doutorado financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Divulgada pela Agência Fapesp, a pesquisa ganhou projeção internacional ao ser publicada na revista científica Molecules.

O método se baseia na análise de isótopos estáveis, variações atômicas de elementos que não se degradam com o tempo. Cada região da Amazônia possui uma combinação única desses isótopos, que funcionam como uma impressão digital geográfica.

Para estruturar o banco de dados inicial, a equipe coletou amostras de 800 árvores espalhadas por 63 localidades da Amazônia. O professor Martinelli apontou que a região conhecida como arco do desmatamento apresenta o maior desafio para o mapeamento devido à elevada diversidade de solos e microclimas.

Inteligência Artificial e machine learning no rastreio

Para contornar a complexidade do bioma, os cientistas integraram modelos estatísticos avançados e inteligência artificial por meio de aprendizado de máquina (machine learning). A técnica prevê a distribuição espacial dos isótopos e amplia a capacidade do sistema em cruzar dados geográficos.

A aplicação prática da tecnologia representa um avanço expressivo para a governança e conformidade no mercado. Mas os pesquisadores ainda trabalham para superar limitações da ferramenta nesta fase do projeto.

"O nosso melhor modelo consegue excluir 80% da área florestal da Amazônia, que são 3,2 milhões de quilômetros quadrados. O problema é que 20% ainda é muito. Para se ter uma ideia, dá mais ou menos 640 mil quilômetros quadrados [uma área equivalente a duas vezes e meia o Estado de São Paulo]", diz Martinelli.

O que isso significa para o mercado e para o ESG

Para o mercado financeiro e corporativo, a consolidação desse rastreio diminui os riscos de sanções comerciais, valoriza ativos sustentáveis e garante maior transparência para as cadeias de suprimento do agronegócio brasileiro. Empresas que dependem de madeira legalizada podem usar a tecnologia como prova de conformidade em auditorias ESG.

A técnica já apoia a Polícia Federal e perícias ambientais, o que significa que madeireiros ilegais enfrentam uma nova camada de fiscalização. O método químico oferece uma evidência blindada contra fraudes no DOF, já que a assinatura isotópica não pode ser adulterada artificialmente.

Com resultados promissores para o setor de sustentabilidade e governança e o contínuo envio de novas amostras para o banco de dados, o mapa isotópico da USP se consolida como uma ferramenta auditável e independente para os órgãos de fiscalização.

Desafios atuais do método

O principal desafio é a escala. O modelo consegue excluir 80% da área florestal da Amazônia (3,2 milhões de km²), mas 20% ainda representa 640 mil km², área equivalente a duas vezes e meia o Estado de São Paulo. A equipe continua recebendo novas amostras para ampliar o banco de dados e refinar o modelo.

A diversidade de solos e microclimas no arco do desmatamento exige amostragem mais densa para aumentar a precisão. Os pesquisadores trabalham para reduzir a margem de erro e permitir que a técnica seja aplicada em escala comercial.

Impacto prático para empresas e consumidores

Para quem atua no setor florestal, no agronegócio ou em fundos de investimentos, a técnica representa uma ferramenta de due diligence mais robusta. Em vez de depender apenas de documentação que pode ser fraudada, as empresas podem usar a análise isotópica como prova independente da origem da madeira.

Para o consumidor final, a tecnologia significa maior garantia de que produtos como móveis, pisos e papel vêm de fontes legais. A rastreabilidade química reduz o risco de comprar madeira ilegal sem saber.

O futuro do rastreamento florestal

O mapa isotópico da USP se consolida como uma ferramenta auditável e independente para os órgãos de fiscalização. Com o contínuo envio de novas amostras para o banco de dados, a precisão do modelo deve aumentar nos próximos anos.

A integração com inteligência artificial permite que o sistema cruze dados geográficos em tempo real, agilizando perícias da Polícia Federal. A expectativa é que a técnica se torne padrão em auditorias ambientais e certificações de origem.

Perguntas Frequentes

Como a técnica da USP difere de outros métodos de rastreamento?

O método analisa isótopos estáveis na celulose da madeira, criando uma assinatura química única por região. Diferente de documentos ou etiquetas, essa assinatura não pode ser adulterada artificialmente.

A técnica já está sendo usada pela Polícia Federal?

Sim. O mapa de referência geográfica já apoia a Polícia Federal e perícias ambientais no combate ao desmatamento ilegal.

Qual a precisão atual do método?

O melhor modelo consegue excluir 80% da área florestal da Amazônia (3,2 milhões de km²). A margem de erro atual é de 20%, equivalente a 640 mil km².

Como as empresas podem usar essa tecnologia?

Empresas do setor florestal, agronegócio e fundos de investimentos podem usar a análise isotópica como prova de conformidade em auditorias ESG e para blindar cadeias de suprimento.

Quem financiou a pesquisa?

O projeto de doutorado foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Onde a pesquisa foi publicada?

O estudo foi publicado na revista científica Molecules.

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